17 maio 2007

Luís Monteiro da Cunha

Anacrónico dos sentidos

foto: © Lmc/2007




Anacrónico dos sentidos
© Luís Monteiro da Cunha


Experimenta fabricar um dia de ausências:
nem som ou visão. Um dia: puro,
sem a mácula de ruído, de imagens.

Procura o isolamento profundo.
Lentamente,
inexoravelmente, és invadido por leve torpor
que docemente embriaga o plexo,
extraindo-se do nexo casual
e o vazio.
Uma acre sensação de abandono;
de perda; de ausência;
o fel do corpo sobe à garganta,
sentes a matéria a desfazer-se,
ínfima, retalhada,
a voar, milhares de estrelas brilhantes, e
tu vogas, perdido da matéria, do som, do olhar,
como se o peso do conhecido te contraísse o peito,
que sofre avassalador
a implosão da razão. uma dor lenta,
infantil, acomete os teus olhos
uma vontade dos seios e sorriso mater.

Regride ao ventre que te gerou, e choras,
e espantas-te, e renegas,
e queres socar o universo que gravita serenamente na poeira cósmica de quanto o teu consciente consegue tomar como conhecimento.
Do que sentes e vês sem ver.
Apenas sentes imagens
que fulgurantes, perfuram os sentidos meteóricos.

És acometido pelo impulso
primário de perda
do in-conhecimento humano.

A nova sensação é voraz e dolorosa.

Resiste, resiste!
Não bulas, nem te atrevas a retesar um só músculo.
Aceita-te como te vês, assim és.
Acolhe o esgar dos lábios que extrais do teu ser,
como a força que mantém a imobilidade.
inerte o gesto e o corpo, que vibra louco,
negando-se por desanexação do real/irreal.

Agora, encontras-te encontrado,
acolhe a tua nova, sempre presente, fragilidade.
Devora o medo, lento, que te invade.
de imediato se esvai o escuro claro que se faz.
a luz da utopia é a concepção de ideias generalizadas.
o eco que apenas adivinhas nos farrapos de imagens
que trespassam libidinosamente a fragilidade da coragem.

Começas por reconhecer o ínfimo sentimento de paz que te absorve, anulando inúteis temores, inúteis gritos, inútil reconhecimento.
Abandona-te nos braços da teia microscópica
que embala a sensação de finidade inútil.
Reconhece, sem que te reconheças, o vazio da existência magma onde flutuas.
Sabes agora que a dor – do que conheces como vida – é a dor vazia
inexpressiva de conteúdo, supérfluo viver/sofrer, ignota ignorância do desnecessário preciso.

Apenas após conhecer o silêncio, a in-visão,
quando escutas – inundado - o troar forte
e cadenciado da máquina universal, conseguirás escutar,
ver e compreender, os maravilhosos ínfimos sons,
que te envolvem, penetram e sustêm a matéria.

Saberás então, que o mundo és tu, - etéreo -
vive em ti e de ti, engrenagem fundamental
da anacrónica função que resiste, apesar
de cronologicamente, seres um ser,
esquecido, que persiste no gesto do suicídio.





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7 Comentários:

Às 17/5/07 16:27 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Este poema, navega já, por mares nunca imaginados pelo autor.
Tem tido enorme eco dos leitores e encontra-se re-publicado em vários sitios da net e fóruns de discussão.
Como autor de palavras singelas, não esperava tamanho brado, por esta utopia estranha e singular, no entanto registo o agrado que o mesmo proporciona a quem o entende e desbrava na plenitude.

Por isso mesmo, não poderia deixar de o postar agora, aqui, no Bufagato.

Abraços
luis

 
Às 17/5/07 16:49 , Blogger Conceição Bernardino disse...

Olá,
Desculpe a minha ausência, mas o que importa é, que estou de volta.
Continuarei a comentar, é esta a minha maneira de ser:
Oferendo poemas de alguém, receba com carinho!



Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...

Florbela Espanca

Beijinhos e uma boa semana...

 
Às 18/5/07 19:05 , Blogger Alex disse...

Uma engrenagem quase, quase perfeita.
Passa um bom fim de semana Luís.

 
Às 18/5/07 23:24 , Blogger Pérola disse...

E fizeste muito pois obras primas não são para deixar escondidas. A tua poesia progrediu. Aplauso meu.

 
Às 19/5/07 12:16 , Blogger Papoila disse...

Luís:
Tem tido enormeeco porque é uma obra prima de sensibilidade e de pesquisa interior.
Beijo

 
Às 20/5/07 23:21 , Blogger Pink disse...

Poema denso e de conteúdo forte, apelo à introspecção total e profunda que muito apreciei.

Pelos visto não fui nem por sombras a única!! :-)

Um beijo, Luís.

 
Às 22/5/07 00:30 , Blogger vieira calado disse...

Faço minhas as palavras de muitos anteriores comentários. é um excelente poema.

 

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