26 novembro 2005

Luís Monteiro da Cunha

A Decisão... (10)


.../...
- Jorge!... – Chamou a Dr.ª Isabel – Mas este, absorto nos seus pensamentos nem a ouvia.
– Dr. Antunes! - Chamou a Dr.ª Isabel elevando a voz.
O Dr. Jorge Antunes, voltou à realidade de chofre quando se apercebeu que falavam consigo.
- Desculpe Dr.ª Isabel... - Desculpou-se Jorge.
- Hum..., estava no mundo da lua... Chegue aqui se faz favor, enquanto providencio uns sais ou um copo de água para a nossa menina...
Jorge aproximou-se lentamente do canapé, enquanto a Dr.ª Isabel se ausentava.
Com ternura agarrou na mão esquerda de Ana esfregando-a levemente. Passou os seus dedos naquele rosto, belo, apesar de adormecido.
Sem pensar, aproximou o seu rosto do de Ana...

Ana acordava lentamente.
Aos poucos começava a ouvir ruidos e também aos poucos recordou o que se tinha passado. Tomou consciência de que tinha desmaiado.
Não abriu de imediato os olhos.
Deixou-se estar naquela letargia, tão sossegada e descansada. Pela primeira vez nas ultimas horas, estava totalmente relaxada. Serena.
Não sabia se queria abrir de novo os olhos para a realidade que lhe era madrasta. Intimamente, queria continuar desfalecida, ou se possivel continuar a viver apenas no mundo dos sonhos.
Era mais fácil.
Escutou a Dr.ª Isabel a pedir ao Dr. Antunes que a sustituísse junto de si.
Sentiu-o aproximar-se e como este ternamente agarrou na sua mão.
Como lhe afagou o rosto.
Estes gestos souberam-lhe bem. À quanto tempo não recebia assim um carinho.
Sentiu-se invadida por um calorzinho gostoso que ainda mais a relaxou.
Queria continuar assim indefenidamente... acarinhada. Era tão bom...
Estranhou este sentimento. À tanto tempo que não o sentia...
Vieram-lhe à memória excertos da sua paixão com Paulo.
Até agora o único homem da sua vida.
Recordou o quanto se apaixonara perdidamente, desde o momento em que lhe chegara à fala no bar da esquina.
Ficara espantada com o seu inesperado convite para sairem juntos... as invejas que provocou nas amigas, tendo algumas até, deixado de lhe falar... e como se dera pela primeira vez àquele homem que assim a arrebatara e delicadamente a fizera pela primeira vez sentir-se uma mulher completa.
Não se arrependia de lhe ter oferecido a sua meninice.
Afinal, fora uma paixão arrebatadora e feliz.
Com todos os encantos, parecera estar a viver um conto de fadas... enquanto durou.

Sentiu o calor e o cheiro do after shave do rosto de Jorge junto do seu.
Inalou o suave perfume masculino que lhe entrava nas narinas, abrindo lentamente os olhos sem se mover.
Viu o rosto másculo junto do seu, com os olhos semicerrados, como se fosse beijá-la num arrebatamento.
Aguardou um instante... como demorava e sentia desejo desse beijo, lentamente levantou um pouco a cabeça e num gesto lento mas resoluto, encostou os seu aos lábios de Jorge...


Jorge contemplava e pensava na beleza daquele rosto e o quanto o atraía.
Só agora, que esta estava ali desfalecida, indefesa, sentiu que poderia ser mais que admiração o que o motivava a contemplar aquele ser belo, mas inanimado. Sentiu uma vontade indómita de a confortar e acarinhar amorosamente. Sentiu-se invadido por uma ternura infinda.
Olhando os seus lábios carnudos, teve um desejo repentino de a beijar... abraçar, dar carinho. Trazê-la de novo à vida.
Sabia que não deveria fazê-lo. Não era correcto.
Recriminou-se mentalmente por ter pensamentos destes, fora de contexto, num momento tão dramático.
- Ganha juízo, Jorge. – Pensou. – És estúpido? Controla-te...


De repente sentiu os seu lábios esmagarem-se nos de Ana, num beijo furtivo.
Abriu os olhos surpreso.
Os seus lábios beijavam Ana, como? Não se dera conta...
Ergueu-se de imediato e ficou a olhá-la, olhos nos olhos.
Ele de olhos esbugalhados.
Ela enternecida e ligeiramente sorridente.
Jorge ficou atordoado, não soube de imediato que fazer ou dizer...
Desviou o olhar
- Eu... eu só queria... desculpa... – balbuciou.
Ana, apenas sorriu e continuou deitada a olhá-lo.
Jorge, acabrunhado deu meia volta e abandonou visivelmente transtornado o gabinete.
.../...

© Guilherme Faria



30 Comentários:

Às 26/11/05 01:51 , Anonymous Anónimo disse...

Está na altura do Jorge fazer as pazes com a vida e apostar no amor e na tranquilidade, quem sabe, da Ana? Afinal, ambos estão magoados e, de certa forma, deformados com as pessoas que passaram pelas suas vidas. Mas não vale a pena cortar raízes porque o coração tem uma qualquer forma de se auto-regenerar. Continuo a gostar. Continuo a ler e a seguir a história destes personagens tão reais.

 
Às 26/11/05 12:33 , Blogger Nina disse...

Passei para deixar um beijinho e desejar um BOM FDS :)

 
Às 26/11/05 14:06 , Blogger Dad disse...

A verdade é que, apesar de todas as desilusões que vamos tendo pela vida fora, cada vez que nos apaixonamos parece que é sempre a primeira. Deve haver realmente um mecanismo autoregulador das nossas emoções que continua a fazer-nos acreditar que tudo ainda é possível. Gostei do texto.
Bom fim de semana e bjito,

 
Às 26/11/05 15:04 , Blogger Que Bem Cheira A Maresia disse...

Vim actualizar a leitura e fico sempre presa aos teusb textos, a tua narrativa é de tal forma que nos faz entrar na história e torná-la real. Aguardo ansiosa os próximos capitulos.

Bom fim de semana

Beijo da Lina/Mar Revolto

 
Às 26/11/05 15:10 , Blogger lena disse...

de tanto correr tive que me sentar no teu blog, é confortável
hummm então o Jorge vai despertar para o verdadeiro amor?

é tempo de a Ana sentir a felicidade de novo e nada melhor que o Jorge, ambos tiverem problemas com o primeiro envolvimento

mas ainda não entendi se a Ana sempre perdeu o emprego ou se ganhou um novo amor

bem, mas o importante é ao ler-te consegui transportar a minha imaginação e sem querer até assisti ao beijo do Jorge

continua eu voltarei

beijinhos

lena

 
Às 26/11/05 18:34 , Anonymous Anónimo disse...

Sim senhor, a Ana surpreendeu-me, desmaiada mas mais rápida... a deixar o pobre do Antunes desarmado! E agora, perde ou não o emprego? E a Drª Isabel? Fiquei com a "pulga atrás da orelha" com a história da "nossa" Menina! Claro que venho ler o resto da história

 
Às 26/11/05 18:58 , Blogger margusta disse...

Olá Bufagato,
...será que Ana já trazia o Dr.Antunes "debaixo de olho", ou foi só um impulso por se sentir carente e fragilizada...

Ana despertou do desmaio bem vivinha..lololol

Estou a gostar.

.." e sentia desejo desse beijo"...
Acho que esta foto ilustra muito bem o texto, porque para além de um beijo a foto transmite muito desejo.
Jinhossss e bom fim de semana.

 
Às 26/11/05 22:27 , Anonymous Anónimo disse...

Olá. Cheguei tarde, mas prometo que vou começar a ler o conto, cativou-me logo pelo título. Bom fim-de-semana.

 
Às 27/11/05 00:07 , Anonymous Anónimo disse...

É, o autor deste romance tem muito jeito para escritor sim senhor. Estou a gostar de toda esta tramoia que vai acabar certamente num amor desmedido. A ver vamos. Um abraço Luís Cunha e um Bom fim-de-semana para ti.

 
Às 27/11/05 00:09 , Blogger AS disse...

Meu caro, gosto da forma descritiva dos teus textos.
Um abraço e bom fim de semana

 
Às 27/11/05 00:24 , Anonymous Anónimo disse...

O amor neste enredo, vai ainda fazer das suas. Cá continuo. Beijinhos.

 
Às 27/11/05 16:24 , Blogger almadepoeta disse...

Amigo

Reparei agora, ao visitar o teu blog que tenho andado em falta.
Voltarei com mais tempo para ler e comentar.
Agradeço as tuas visitas e a observação no poema do Fernando Monteiro. Na realidade está transcrito correctamente, por esse motivo não o vou alterar, por respeito ao poeta .
Beijinho e bom fim de semana

 
Às 27/11/05 17:41 , Blogger Cristina disse...

ATé que enfim! Para o Jorge vai ser uma maravilha ver que ainda consegue amar, e para a Ana também...fico á espera do próximo
:)
estou adorar
beijinhu

 
Às 28/11/05 04:13 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Mocho...

Será assim, querida amiga?
A ver vamos, espero que tenha razão.

bjinhos

 
Às 28/11/05 04:14 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Nina...

Obrigado
e
Boa semana


bjinhos

 
Às 28/11/05 04:15 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Dad...

A esperança no amor é infinda, apesar das desilusões...

Obrigada

bjinho

 
Às 28/11/05 04:17 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Aromas do mar/Lina

Obrigada, tenta-se facilitar a leitura e criar a envolvência que capte os sentidos...

Boa semana

bjinho

 
Às 28/11/05 04:22 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Palavras que escrevo...

Tantas questões a que ainda não consigo responder.

Lena
Assististe... ou chegas-te a senti-lo, como se fosse real?

Obrigado por te deixares envolver, é gratificante, saber que um texto transporta para outras dimensões...
quase reais.

bjinho

 
Às 28/11/05 04:25 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Maria papoila...

Hehehe!

Só perguntas...

A Ana é uma mulher de arrebatamentos, sempre foi, como se depreende desde o inicio...

Obrigada

bjinho

 
Às 28/11/05 04:30 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Margusta...
Querida amiga,
Também a Ana tem desejos e momentos carentes, afinal é jovem e à muito não recebe carinhos de ninguém, lembra-te que está sozinha numa grande cidade...

Vamos ver se o trazia ou não debaixo de olho, como dizes...

Boa semana

Beijos fugazes lol

 
Às 28/11/05 04:31 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Claudia...

espero que gostes Claudia, depois diz qualquer coisa.

Boa semana

bjinho

 
Às 28/11/05 04:33 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Soslayo...

O autor agradece.
Assim seja... desmedido.

Boa semana caro amigo.

Abraço

 
Às 28/11/05 04:34 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Frog...

Obrigado, ainda bem que gostas.

Boa semana

 
Às 28/11/05 04:35 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Maria do Céu Costa...

Já está a adivinhar algo? lol

Obrigado por acompanhar.

Boa semana

bjinho

 
Às 28/11/05 04:37 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Alma de poeta...

Volte e comente quando puder.

Compreendo.

Boa semana

bjinho

 
Às 28/11/05 04:39 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Nita4ever...

A capacidade de amar nunca se esgota no ser humano... atrás de uma desilusão nasce outra paixão, pode demorar, mas acaba por acontecer.

Obrigada

Bjinhos

 
Às 28/11/05 08:43 , Blogger Unknown disse...

Olá amigo, li o teu post gostei imenso, embora eu n/ acredite no amor, tenho que concordar que escrito em textos é belo. beijinhos

 
Às 28/11/05 13:21 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Adryka...

Cara amiga...
Então!?
Quem lhe deixou assim o coração tão desgostoso?

Não acredito!
Porque do pouco que lhe conheço, sei que existe amor no seu coração.
Os actos altruistas que no dia-a-dia pratica, demonstram o contrário, porque só quem tem amor, pode ser assim, abnegado, em prol de outrém.
Não, cara Adriana, não é totalmente verdade.
Compreendo que esteja magoada.
Compreendo que se sinta desgostosa
Compreendo que para si o amor, agora não passe de uma palavra, porque a sua dor ainda está viva, dolorosa. Mas não esqueça que ao renegar a existência do amor, por um amor passado, apenas está a sblimar esse mesmo amor que renega.

Complicado, não?

Beijo muito querido, para ti cara amiga, e muito amor, sejas inundada de amor em tudo que olhes e realizes.

 
Às 28/11/05 16:46 , Blogger Unknown disse...

Obrigado pelo email mas a dor que sinto no meu peito originada pela traição dificilmente me deixará algum dia acretitar no amor.

 
Às 28/11/05 23:03 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Adryka...

Resposta por mail

Anima-te!

Precisas!

Beijoss

 

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