14 setembro 2006

Luís Monteiro da Cunha

Carta aberta a Paula

Cara amiga Paula

Deixe-me tratá-la por amiga, sim?

Este mundo, a que me orgulho (ainda) de pertencer, por aqui ter sido concebido e criado, e ainda por desconhecimento ou recordação de outras possíveis vivências, promove-me sentimentos ambivalentes:
- Por um lado, toda a beleza, no sentido lato da palavra, que existe no mais ínfimo pormenor; no mais pequeno grão de areia; na folha que se solta da árvore e lança-se nos braços do destino, embalada pela serena brisa da manhã, até terminar o seu ciclo de transformação da matéria de que é constituída. Se pensarmos bem, o corpo da folha não morre. Transforma-se. Em habitação de insectos, até, em alimento dos mesmos, ou em turfa que alimenta e sedimenta o planeta.
- Por outro lado, as maiores tempestades e mais nefastas, criam-se no cérebro humano, que, por desconhecimento, indolência, oportunismo: financeiro ou social, etc., não se coíbe de maltratar o seu próprio irmão, desprezando em si, os valores éticos e morais que deveriam suster determinados actos, os quais voluntariamente pratica no seu semelhante, esquecendo-se que é feito da mesma matéria perecível, subvertendo a seu bel-prazer, os valores da sociedade.
A culpa, morrerá solteira? Não! A culpa é nossa. De todos nós, humanos, que na galopante procura de sucesso, espezinhamos, fomentamos consumos supérfluos de inenarráveis materiais que nos dão o sentimento, efémero, de bem-estar, quiçá até, de felicidade aparente. Essa felicidade é tão sôfrega de ambicionados instrumentos (apesar de supérfluos para a sobrevivência) que para o seu desfrute, todos os meios são usados, mesmo aqueles que sabemos conscienciosamente serem errados.
Tudo neste mundo tem um preço a pagar. Estaremos a pagar o facto de um longínquo dia, termos abandonado a caverna e ousado sonhar escrever estas palavras no computador.
Dói-me o coração constatar, quase diariamente, o quanto esta sociedade, que se diz evoluída, regride nos seus actos. Cada descoberta válida e sã, que alguns interessados na evolução do conhecimento da espécie faz, é imediatamente deturpada e subvertida para um conceito económico de viabilidade na exploração. Criam-se gabinetes de marketing, apenas com o propósito de incutir na sensibilidade do consumidor a vontade de adquirir determinado produto ou bem, do qual nunca precisou até determinado momento e que se torna imprescindível quotidianamente. Luxos, a que não sabemos ou não queremos virar as costas, consumidores compulsivos de modas e estilos de pseudo-idolos que nos invadem diariamente o lar.

Sejamos reflectivos e tenhamos a coragem de dizer: Nâo.

Desculpe-me este desabafo.

Ao André Bordalo.
19 anos - assassinado, faz hoje um mês (2006-08-14) na praia de Copacabana.

A todas as vitimas.

Luís Monteiro da Cunha

Tenham um bom dia!

5 Comentários:

Às 14/9/06 09:40 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Solidariedade.
Benevolência.
Amor...

É quanto necessitamos nesta vida,
para que esta nos sorria em cada manhã!

Abraços

 
Às 14/9/06 16:30 , Blogger a d´almeida nunes disse...

Caro Luís
Há uns tenpos que não parava neste sítio. Tenho andado por outras paragens, nas férias fui à Ilha Terceira e trouxe de lá tantas recordações que me vão deixar saudades para sempre. Quem sabe se para o ano que vem não as matarei por mais algum tempo?
A sua carta, que deixou aberta, e nós cá a vamos lendo, é dum sentimento a toda a prova. Nota-se nele algo de profundamente incontido...
As três palavras que realça são também na minha opinião, representativas do que de mais importante há na VIDA.
Enquanto radioamador fundei um clube, em tempos, WP - White Pidgeon, cujas palavras de ordem eram: PAZ, AMOR e SOLIDARIEDADE.
...
Um grande abraço
António dispersamente

 
Às 15/9/06 02:48 , Blogger Fernando Palma disse...

É , o mundo sempre foi e dificilmente deixará de ser paradoxal. Bom e ruim. Injustamente bom, ofensivamente belo.

Bonita carta. Bonita homenagem.

 
Às 15/9/06 16:01 , Blogger Unknown disse...

Beijo e abraço apertado
:-)

 
Às 16/9/06 14:46 , Blogger Papoila disse...

Lindíssima carta e concordo em absoluto com as premissas das nossas necessidades nesta vida:
Solidariedade.
Benevolência.
Amor...
Beijo

 

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