04 janeiro 2006

Luís Monteiro da Cunha

A morte da saudade


"O quarto estava na penumbra.
Nunca se habituara a adormecer totalmente às escuras e por isso mesmo mantinha um pequeno candeeiro de luz fraca, sempre aceso. Não se destinava a iluminar, era apenas para a sossegar durante o sono.
Acabara de se deitar.
De repente o telefone toca. O ruído sinistro e impessoal soou estridente no quarto, ferindo os tímpanos, como se penetrasse o seu cérebro que se preparava para descansar.
Quem seria?
Olhou para o relógio digital.
Não era ainda muito tarde!
Mas o seu coração, bateu mais forte…
Lentamente, levantou o auscultador…
- Está lá… sim? … - Disse na sua voz meiga e natural.
- Olá amor!!!
Aquela voz… oh, aquela voz. Tinha o condão de quase a fazer flutuar sempre que a ouvia, aumentando o seu ritmo cardíaco. E ultimamente apenas a escutava por aquele estranho aparelho. Como ansiava por ouvir novamente aquela “sua” voz ao vivo, sem distorções eléctricas e ruídos de fundo.
- Olá querido, que surpresa! Quando voltas? .
- Tenho uma notícia para ti...
- O que é?… – disse ansiosa.
- Sabes quem morreu há segundos?
- Não… – Disse, estranhando e já em sobressalto. Pensou rapidamente em todos os seus entes queridos, mas desconhecia que alguém estivesse doente. – quem?... Perguntou já amargurada.
- A saudade, meu amor, a saudade! Morreu feliz, quando atendeste!..."


© Guilherme Faria
In, Luares Sentidos
Posted by: lmc

12 Comentários:

Às 4/1/06 02:37 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Porque nem sempre a saudade é negativa... pode ser também chama de amor.
Quando esta (saudade) morre, o prazer do reencontro supera qualquer dor que se tenha sentido.
Resta apenas o amor sublime em toda a sua plenitude.
Fiquem com este pensamento.

 
Às 4/1/06 11:18 , Blogger Unknown disse...

Mas meu amigo começas o ano assim :) então tens de por um post todo cheio de Alegrei, vai ao Crepúsculo e vê o meu novo posicionamento profissional. Beijinhos

 
Às 4/1/06 13:55 , Anonymous Anónimo disse...

Claro que nem sempre é negativa Gato lindo! Este teu texto, acompanhado da fantástica cantiga de fundo conforta qualquer alma saudosa... Beijo

 
Às 4/1/06 15:28 , Blogger Cristina disse...

Olá
Ano Novo...Vida Nova...lá diz o ditado !!!
No começo deste novo Ano,
resolvi dar ao "meu mundo",o meu nome .
A partir de hoje,podes-me encontrar em :

http://omundodacris.blogspot.com

Desde já peço desculpas, pelo incómodo que te possa causar.
Beijinhuss

 
Às 4/1/06 18:02 , Blogger Dad disse...

Fez-me tão bem ler este teu post hoje! que lindo! Obrigada! O teu post iluminou de estrelas o meu fim de tarde!

Um beijinho para ti!

 
Às 4/1/06 21:26 , Blogger Nina disse...

Hoje recomeço com as minhas visitas...deixo um beijinho cheio de amizade neste inicio de ano :)

 
Às 4/1/06 22:46 , Blogger António disse...

Uma "very short story" com um final surpreendente.
Gostei!

Abraço

 
Às 5/1/06 00:44 , Blogger margusta disse...

Olá Bufagato,
...história pequenina mas muito bonita...Adorei..

Beijinhos amigo

 
Às 5/1/06 21:45 , Blogger lena disse...

adorei ler
e conseguiste fazer com que meditasse e muito mais com o pensamento

mas acredita que muitas vezes mato assim a saudade

beijinhos

lena

 
Às 5/1/06 23:03 , Blogger Pink disse...

Texto com ume história muito bem concebida, que agarra o leitor e tem um final surpreendente e belo.

Um beijo

 
Às 11/1/06 23:43 , Blogger soslayo disse...

Bufagato,

Quero morrer de saudade
Dessa saudade que alimento
E ao senti-la por perto
Juro que morro e não sinto.

E a saudade ao ouvir-te
morre outra vez num sucinto.

Este texto está interessante e, o final interessantíssimo está. Um abraço Bufagato.

 
Às 14/1/06 23:53 , Anonymous Anónimo disse...

Girissimo este texto. É tão bom matar saudades de alguém que amamos, apesar de que o ser humano vive em constante saudade de algo, quer seja de uma pessoa, de um lugar, de alguma coisa, de um sentimento, até de um cheiro ou sabor. Eu tenho constantemente saudade do sabor à salsicha de caril que como cada vez que vou À Alemanha, tenho saudades dos meus amigos do Porto qd estou em Viseu, e dos de Viseu qd estou no Porto, tenho saudades do cheiro às rosas que a minha mãe tem no verão no quintal, tenho saudades do tempo de infância...é tanta coisa... é engraçado matarmos a saudade, mas ela como uma Fénix quase sempre renascer. Um beijinho amigo***

 

Publicar um comentário

Subscrever Enviar feedback [Atom]

<< Página inicial