12 novembro 2005

Luís Monteiro da Cunha

A Decisão... (3)



.../...
Ana pensou na sua curta vida a dois.
Como se dera gratuitamente àquela relação e como se anulára tantas vezes para esta continuar a dar certo. Os sapos engolidos. Tantas frustrações, tantas mágoas, os ciúmes contidos. As esperanças perdidas uma atrás da outra.
Nem o sexo, antes louco, desenfreado, ultimamente apenas consentido, os salvou.
Até só restar o respeito mútuo num conviver de irmãos. Mesmo esse tipo de relação perdeu-se na noite passada.
Recordou a discussão violenta.
Viu o belo rosto de Paulo transfigurado numa máscara hedionda, desconhecida para si, onde predominavam a cólera e a raiva. A bofetada soou-lhe a um tiro de canhão, que lhe deixou os ouvidos a estralejar e um zumbido constante durante alguns minutos.
A imediata luta corpo a corpo que se seguiu. Os móveis a quebrar num ruído ensurdecedor, enquanto se agarravam e empurravam, entrecortado pelos palavrões desprezíveis que a alcunhavam de mulher da rua e nunca pensou ouvir dos lábios que beijou.
O seu ego sorriu-se, ao recordar como lhe acertou com a sua adorada jarra, mesmo em cheio na testa, estatelando-o no chão, inanimado. Vendo-o prostrado, temeu pela sua vida. Cumulou-o de beijos e chamando o seu nome aflita, este por fim, acordou do desfalecimento.
Ficaram ali sentados no chão, alguns minutos que lhe pareceram uma eternidade. Lado a lado, calados, sem saber que dizer.
Paulo levantou-se lentamente ainda zonzo, a esfregar a testa já arroxeada.
Olhou-a ainda sentada no chão da sala e autoritáriamente sentenciou:
- Para mim... chega! Esta relação não é saudável para nenhum de nós. Podes ficar “aqui” – dando ênfase à palavra - enquanto não arranjares onde ficar. Entretanto volto para casa de meus pais. Avisa-me quando puderes sair.
Abandonou de imediato a habitação que fora o seu lar nos ultimos dois, quase três anos. Ana ficou sentada a soluçar baixinho, até que se levantou e dirigiu-se ao quarto onde se prostrou na bela cama de dossel.
Não conseguiu adormecer, os soluços secos na garganta dorida, como se uma bola pequena ali estivesse atravessada, impediram-na.
Quase de manhã, tomou a decisão de dar outro rumo à sua vida.
Paulo tinha razão. Não podia continuar nesta situação. Dependente de Paulo, da sua fama e lucro nas passereles.
Morria de ciúmes em cada revista folheada, onde Paulo posava com belas manequins seminu.
É verdade que quase nada lhe faltava na vida. Qualquer desejo seu, logo Paulo a satisfazia, apenas o seu amor regressava a casa cada vez mais tarde, quando não telefonava a dar-lhe conhecimento de que teria de dormir fora, porque a sessão acabou muito tarde e não dava para regressar nessa noite. Também ela não dormia nessas noites, magicando o que se estaria a passar. Que estaria ele a fazer, a dormir? Sozinho? Ser-lhe-ia fiel no meio de tanta tentação?
A tudo assistiu calada, admirava-se como o conseguia. Mas o temor de o perder, melindrando-o, era maior. Ultimamente andava irritadiço, desconhecia a razão. Com o tempo tornou-se um amor doentio, possessivo. Desconfiado. E o pior de tudo, achava que era unilateral.

.../...

Guilherme Faria

15 Comentários:

Às 12/11/05 03:09 , Anonymous Anónimo disse...

vou começar ali por baixo, até logo...

 
Às 12/11/05 09:46 , Anonymous Anónimo disse...

Passei para te desejar um bom fim de semana. Tenho acompanhado o que tens escrito mas, por enquanto, não faço comentários...Um beijo e tudo de bom

 
Às 12/11/05 11:00 , Blogger Unknown disse...

bufagato
És o Guilherme Faria?
estou a gostar de o ler, agora não te safas de nos mostrar o fim da história, o interessante é que a história é vista do ponto feminino... very good!
beijoca e bom fim-de-semana.

 
Às 12/11/05 11:10 , Anonymous Anónimo disse...

Cá continuo acompanhar. Bom fim de semana. Beijinhos.

 
Às 12/11/05 15:46 , Anonymous Anónimo disse...

No banquete do amor, o ciúme é o saleiro, que ao querer verdadeiro, empresta vivo sabor. Advirta-se, porém, ser erro temperar em demasia. O ciúme, por ser só sal, se posto demais no prato, não tempera, antes, maltrata. Bom fim de semana.

 
Às 13/11/05 12:15 , Blogger Nina disse...

Desculpa a minha ausencia por estas bandas...mas estou a passar um momento menos bom e nem visitar os blogs q gosto me tem apetecido :(

Adoro "ler-te"...

Beijinho e OBRG pelo teu carinho :)

 
Às 13/11/05 19:29 , Anonymous Anónimo disse...

Olá Bufagato. Isto está difícil... muuito difícil conseguir comentar... há dias em que a caixa não abre. Inda por cima as letras estão pequeeeeeeninas... tou frita! Boa semana para ti afilhado!

 
Às 14/11/05 03:38 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Lazuli...

Agradeço a visita

bjinho

 
Às 14/11/05 03:39 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Delta...

Obrigado

tudo de bom

Bjinhos

 
Às 14/11/05 03:40 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Sona...

Estás a gostar...

ainda bem...

Já tinha saudades tuas.

Bjinhos

 
Às 14/11/05 03:41 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Maria do Céu Costa

Agradecido


Bjinhos

 
Às 14/11/05 03:42 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Emptysoul...

Obrigado pelo tempero

Fica bem

 
Às 14/11/05 03:43 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Nina...

Vai passar...
Tudo passa, vais ver.

Obrigado

Bjinhos

 
Às 14/11/05 03:44 , Blogger Luís Monteiro da Cunha disse...

Animaleja...

Obrigado
Madrinha

Tudo de bom

Bjinhos

 
Às 15/11/05 13:36 , Blogger Carlota disse...

Obrigada por este "livro" que nos estás a proporcionar. Beijo e agora vou ler o (4).

 

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